Um Beijo De Despedida, Em Grande Estilo


        Rodoviárias, estações de trem, aeroportos são os cenários das despedidas e reencontros. Muitos não gostam de despedidas, pois, nem sabem o que dizer nesse momento que na verdade é quando alguém do nosso convívio está indo embora e esperamos rever essa pessoa o mais breve possível. Em alguns casos, é verdade, algumas pessoas não deixam saudades quando vão embora. Com exceção da despedida de solteiro, nenhuma outra despedida é boa. Despedir-se do ano que está acabando é relativo, isso dependerá de como foi o balanço do ano, bom, ruim, ótimo ou péssimo. Ainda bem que esse ano está terminando ou esse ano vai deixar saudade. De qualquer forma, cada ano que vai embora nunca mais volta. A flecha do tempo não usa rodoviárias, nem estações de trem, nem aeroportos. Todos nós temos ou  teremos um ano ou alguns que julgamos especiais, pois neles fatos aconteceram  que nunca mais se repetirão, até por uma questão cronológica, mas muito mais saudosista. Esse reencontro com esses anos especiais que é impossível no mundo físico, acontece, porém, na nossa lembrança.  Quando recordamos é um tipo de "viagem mental" pelo tempo, é uma pena que o corpo não vai junto. O que as pessoas pensam, mas nem sempre dizem, ou melhor, guardam para si mesmas nas despedidas é:  Será que vou vê-la novamente?. Sem contar que a pessoa que fica e a que está indo, algumas vezes, sentem um mau pressentimento. Como se explica pessoas que desistiram na última hora de embarcar em aviões que sofreram acidentes?. Algumas vezes, uma viagem que  era pra ser de um mês acaba durando 10 anos.  Muitos se despediram em algum momento e nunca mais se viram, num desencadeamento  de acontecimentos, mudanças.  Nesses meandros e labirintos da vida. Algo como: "Preciso visitar meus parentes legais do interior de São Paulo ou noutro Estado que me despedi na rodoviária há muitos anos atrás". "Rever os amigos que também se perderam no labirinto do tempo e da vida". Algumas vezes, parece que a vida é feita de momentos que tentamos manter, mas que vão sendo perdidos pelo caminho. Ah sim!, eu sei, é o tal de apego e sofrimento que o Budismo faz explica. Nem sempre a despedida e reencontro cumprem o tempo que se planejava. Parece mais um tipo de contrato no qual há uma cláusula com letras tão pequenas que são quase invisíveis, impressas com a tinta da: “fatalidade”; “desencontros”; “percalços”.  Muitas vezes, esse reencontro jamais ocorrerá por inúmeras fatalidades que queremos explicação, mas, nem sempre encontramos ou aceitamos, ou engolimos, mas não digerimos.  Para os namorados da foto, a despedida antes do embarque não foi o suficiente.  Ao invés de ficarem se despedindo só verbalmente, graças a ajuda dos amigos, conseguiram um beijo de despedida. Esses são os verdadeiros amigos, não tentam roubar a namorada do outro, e sim num trabalho de equipe, ajudam segurar o amigo com metade do corpo para fora. Eu não sei nada sobre essa foto, há inscrições nas bordas, é provável que seja de um acervo particular, a julgar que só há homens no vagão, militares, devem estar indo para embarcar para alguma frente em alguma guerra. Provavelmente, a 2ª Guerra Mundial.  Com certeza essa é a pior despedida que pode existir, pois, não existe garantia nenhuma de que a pessoa voltará viva e nem morta. Desaparecidos em ação, há centenas, sem restos mortais para descansarem em paz. Por esse motivo, dizia-se que quando a despedida era prolongada e triste alguém dizia: “Parece que está indo para a guerra!”. Os soldados olhavam as fotos das namoradas, muitos deixavam esposas e filhos pequenos. Durante algum tempo de licença das estressantes missões, apegavam-se  nessas imagens e nas cartas, as quais demoravam meses para chegarem, e, infelizmente, alguns destinatários já estavam mortos. Apegavam-se nessas lembranças do mundo civilizado que deixaram para trás e encontravam forças para continuar combatendo na insanidade da guerra. Naqueles momentos, nos piores momentos, eles se apegavam nesse sonho, na esperança de poder rever o que de importante ficara para trás. Essa  foto parece ser mesmo uma despedida de ida para o Front, tem uma urgência pungente, nesse momento ele se encontra entre dois mundos, no vagão para o front e com a namorada. Eu diria que é quase um momento quântico visto no macrocosmo, está dentro e fora do vagão, indo pra guerra e ficando com  a namorada. Claro, a namorada vendo todos os planos serem adiados, a guerra já fazendo os primeiros estragos, separando pessoas e sepultando sonhos. Nesse momento, ele queria ficar nos braços da namorado ao invés dos braços da morte da guerra. Geralmente, os filmes sobre a guerra não mostram a realidade dos combates porque é insano, com exceção das cenas do desembarque dos aliados na França, Normandia, no Dia D, retratadas fielmente no filme: "O Resgate Do Soldado Ryan". Voltando a foto do post, esse momento, a engenhosidade deles, com certeza, foram lembrados, onde quer que ele ou ela tenham estado. Já vimos despedidas com acenos, com lenços, chapéus, feitas em navios, esta da foto do post, embora antiga, é inédita. O que teria acontecido com o casal?. Trocaram correspondência durante a guerra. Ele retorna e são felizes. Ele morre em combate,os pais recebem a visita dos oficiais trazendo aquela carta de condolências, aquela carta padronizada, fria, fúnebre  e triste e a namorada fica sabendo.  Tudo é especulação, probabilidade. O que realmente ficou foi esse momento, e nas entrelinhas, esse pode ter sido o primeiro e último beijo de despedida do casal de namorados. Como já disse alguém: "No amor e na guerra vale tudo".