A Pintura e os Espelhos

  
        Aparentemente, não há uma relação entre a pintura de Velázquez, chamada:  “As Meninas” ou "A Família de Felipe IV" e uma tela presa num cavalete de pintura no meio do deserto. Sim, é uma tela, uma pintura, uma é a paisagem de um deserto, e a outra um retrato da família real, onde existe o próprio autorretrato do autor da pintura, Velázquez. Ambas mostram o detalhe do cavalete. Tudo parece muito óbvio, mas, na verdade, a primeira grande surpresa é que a paisagem que aparece na tela presa ao cavalete, a paisagem do deserto, não é uma pintura, é o reflexo de um espelho. Não é uma tela, mas sim um espelho colocado num cavalete. Depois dessa revelação, é possível traçar um paralelo entre o espelho e o quadro de Velázquez.  Desde o término do quadro, em 1656, até os dias de hoje, uma dúvida persiste: Quem afinal está sendo retratado, aparece, no quadro que Velázquez está pintando. As duas figuras que seriam o casal real aparecem refletidas num espelho emoldurado pendurado, na parede, ao fundo, seria a resposta?.  A outra hipótese seria que o que parece ser um espelho numa moldura, na verdade,  é apenas outra tela pendurada na parede, não um espelho. Ainda, há quem diga que, caso seja um espelho, o que aparece no reflexo não é a imagem real do casal real, mas sim a imagem deles pintada na tela. Outra explicação é que  a pintura é  um “making of”, onde o próprio artista se retratou, enquanto pintava o quadro: “As Meninas”. Mostrando parte do making of da pintura ele desafia a todos descobrirem o resto. A Infanta Margarida, a menina loira ao centro, aparece com a pose ¾ do rosto invertida ou espelhada, diferente de outros retratos dela pintados anteriormente, ou seja, a imagem é invertida, pois deveria haver um grande espelho à frente, do ponto de vista do pintor, ele os retrata a partir do que vê no espelho, quer dizer, pinta os reflexos. Outro detalhe misterioso, a respeito dessa pintura, é a honraria que aparece nas vestes do pintor,  a condecoração real,  cruz da Ordem de Santiago (cruz em vermelho), só foi acrescentada quatro anos depois do término da obra. O pintor recebeu a condecoração pouco antes da morte dele.  Especialistas das diversas áreas do conhecimento têm tentando desvendar esse mistério, talvez, Velázquez o quisesse insolúvel mesmo. Alguns a mencionam como: pintura dentro da pintura. Espelhos, jogos de espelhos, o mistério e as especulações continuarão. O quadro é de grande dimensão, e as figuras são quase de tamanho natural, qualquer observador  que se posicione em frente ao quatro, passa de mero observador a um modelo, que está sendo retratado, imagine-se sendo pintado por Velázquez, enquanto a família real observa.  Essa é outra leitura possível, o observador da pintura, no museu, é “convidado” a sentir-se como um retratado, alguém que posa para uma pintura, o que ele está retratando é tudo aquilo que se puser na frente do quadro, onde o espelho somos nós. A  personagem principal (sem contar os pais dela que estariam sendo retratados) é a infanta Margarida, a cabeça dela, do pintor, das damas de honra, e as pinturas no alto da parede formam um círculo, que simboliza a perfeição, se as cabeças forem imaginadas como no jogo de ligar os pontos, traçando uma reta, ligando uma a outra, inclusive, com os dois eclesiásticos que aparecem à direita, é formada a constelação:  Corona Borealis (Coroa Boreal), cuja estrela central levava o mesmo nome da menina. Velázquez dispunha de uma das melhores bibliotecas da Europa, é improvável que a configuração da constelação tenha sido mera coincidência. A a proporção áurea foi aplicada à pintura, outro fato curioso, embora tivesse 57 anos na época, Velázquez se autorretratou sem rugas, sem cabelos brancos, sem nenhuma pista que revelasse os 57 anos, foi a fonte da juventude através do pincel e tintas. Ele foi um dos precursores do Photoshop, deixou um autorretrato “retocado” para a posteridade. Todos os retratados voltaram ao pó, mas foram imortalizados pelos pigmentos da tinta. Não se pode ser eternamente jovem, o ser humano é mortal, mas o legado deixado por  ele, torna-o, de certa maneira, imortal. Sobrou pouco espaço para falar do espelho no cavalete, a segunda imagem, nessa caso, a ilusão da pintura fica totalmente dependente da fotografia, só através da fotografia é possível registrar o reflexo que aparece no espelho. O uso do espelho em pinturas não é novidade, até dois são usados em autorretratos, mas o modo como esse espelho foi usado é sim, uma novidade muito curiosa, criativa.