A Arte Tumular.

        Em São Paulo, no Cemitério da Consolação, existem estátuas esculpidas por famosos escultores. Por estarem num lugar não convencional, poucas pessoas as visitam. As pessoas preferem vê-las nos museus e exposições. Embora não perca o status de arte, a arte tumular é revestida de um preconceito. Não é por maldade ou ignorância, mas por tabu.  Embora haja uma tribo urbana que frequenta cemitérios, a maioria das pessoas preferem passar longe deles, só entrando numa situação de extrema necessidade, quando da perda de um ente querido. Embora saibamos que é o destino final do ser humano, o descanso final, a não ser que  se opte por cremação ou  a cara e ainda polêmica conservação no nitrogênio líquido, a criogenia, é o cemitério que traz aquela verdade inconveniente de que todos são iguais perante a morte, embora nem todos sejam iguais perante a lei. Essa foto do post, eu arriscaria dizer que é dos Estados Unidos. Foi um jeito que a família encontrou para fazer uma homenagem diferente, que, realmente, não passa despercebida. Com certeza, deve chamar a atenção de muitas pessoas. Podemos observar que brinquedos são deixados em forma de homenagem. Segundo a escultura, a criança era cadeirante. É impossível precisar qual doença a mantinha na cadeira de rodas, se foi uma doença degenerativa. A condição de cadeirante, fatalidade ou acidente que fez a pessoa ficar paraplégica não está diretamente relacionada ao sofrimento, basta lembrar das conquistas dos atletas paraolímpicos.  Fica claro que o desejo da família e, óbvio, da própria criança era levantar-se da cadeira ou não estar nela, infelizmente, isso não ocorreu. Parece ser uma transcendência, uma mensagem, todo o sofrimento terreno e enfermidades são deixados  para trás, quando se parte para outra existência. O tipo de leitura que pode ser feita dependerá da crença, da bagagem de vida, o modo como a cultura ocidental encara a morte, a crença ou não noutra existência. Entre as muitas leituras possíveis, uma delas é que seja qual for o sofrimento, ele não é eterno. Se podemos deduzir  ou tentar captar essa mensagem, universalmente, é óbvio que, para a família, ela tem um sentido especial, particular, que só podemos conjecturar. Parece ser um meio de a memória da criança não ser esquecida. A família encontrou um jeito muito marcante e comovente de fazê-lo. Os deficientes físicos são batalhadores que superam, ou lutam para superar, as dificuldades e a falta de mobilidade urbana. Algumas cidades vêm evoluindo no rebaixamento de guias, banheiros adaptados, ônibus com elevador para acesso de deficientes, assim como acesso facilitado a comércios, casas de espetáculos, restaurantes, mas resta muito a fazer ainda. Os deficientes físicos têm uma força de vontade titânica, que serve de exemplo e superação para as pessoas que reclamam de seus pequenos e supérfluos problemas do dia a dia. A ciência médica vem evoluindo bastante, o tratamento com células-tronco é promissor, pernas robóticas, nas décadas seguintes, novidades e tratamentos pioneiros devem surpreender. Às vezes, eu coloco postagens que destoam, totalmente, daquelas que as pessoas estão acostumadas a ver no Blog. Nem sempre o tema é relacionado à arte ou humor, embora, nesse de hoje, esteja envolvida a escultura que é arte. Algo original, curioso, único, realmente, diferente. Todos já vimos lápides, mausoléus, capelas, mas igual a esse da foto, não, pelo menos eu nunca tinha visto. O que incomoda e comove, nessa foto, é aquele sentimento de que nenhuma criança deveria morrer, aliás, ninguém deveria morrer, embora seja uma verdade, um fato da vida, deixar de existir, na aurora da vida, é lamentável e irremediavelmente errado.